
Desde o primeiro dia em que pomos os pés dentro da Universidade, seja ela pública ou privada, somos perseguidos por promessas e conceitos pouco concretos sobre a real importância da formação acadêmica. Muitos professores seguem o discurso oficial de que o papel da instituição é de agir como um processo de integração com a sociedade e seus “problemas”. Ouvimos que é um espaço de pluralidade, de aprendizado e de Criação, mas será que é mesmo?
A tragédia da universidade não são as greves muitas vezes nonsense, ou de professores incompetentes ou desgraçados que fazem de suas aulas uma extensão de seus projetos pessoais ou da estabilidade que os bastardos gozam. Mas sim da construção de mitos que povoam a mente das pessoas.
Em primeiro lugar, não há Democracia plena na Universidade, se é que podemos afirmar que tal existe. Não estamos tratando do corpo administrativo somente, mas essencialmente das questões operacionais, dos centros acadêmicos, das relações professor e aluno e dos demais funcionários.
Estas relações não são essencialmente meritocráticas por assim dizer. São escolhas políticas, e no que tange a politicagem espere pelo ralo da sociedade. Comecemos pelos Centros Acadêmicos. Quem tem paciência para decisões enfadonhas? Brigar por seus posicionamentos, ideologias, ou opiniões?
A resposta é simples: primeiramente quem gosta de se envolver com política e em segundo lugar quem tem paciência. Junte tudo num bolo e se pergunte, eles representam a maioria?
O momento máximo do que pode se considerar como democracia que os Centros acadêmicos vivenciam é quando há pautas como greves, paralisações ou coisas do gênero. E é ai que vemos que as opiniões destes dificilmente representam a maioria.
Por isso, o discurso de “Democracia no Campus” ,sua “opinião é importante” não existe, é ilógico. Mas a palavra tem uma força de apelo muito grande, sendo assim ninguém pára pra pensar “será que sou realmente representado?”.
“Esteja presente nas reuniões” responderiam eles. Mas como disse não são todos que tem cacoete para esse tipo de política. E seria um absurdo exigir que todos fossem mobilizados. Sem contar que um processo contra-argumentativo é extremamente estressante, principalmente quando se vai contra idéias majoritárias.
A opinião dos Centros acadêmicos não representa fielmente a opinião dos estudantes. Se fosse assim suas decisões seriam percentualmente iguais às decisões destes.
É irrelevante discutir a existência de C.A’s como uma forma de “sindicato” de estudantes, se formos encarar como uma classe dentro da sociedade, não há nada de errado na representação. Mas tal como nos sindicatos, padecemos dos mesmos problemas assim como a preocupante presença de partidos políticos em suas fileiras, mas esta discussão é interminável e a meu ver desnecessária.
Não, novamente não questiono a existência dos organismos de representação de estudantes, afinal de contas alguém tem de nos representar. Nem quero aqui promover um novo modelo de gestão nem nada. Só que Democracia como nos é vendido aquilo não é.
Agora quanto à idéia de se fazer ciência, me parece que aderimos ao discurso oficial: Formação profissional, mercado de trabalho, carreira acadêmica...
É a mesma coisa ouvida nos quatro cantos, mas será que é real?
Grandes empresários bem sucedidos largaram a faculdade, entre estes coloque o Bill Gates que desistiu no meio de seu curso. Por enquanto fiquemos com estes nomes:
Bill Gates, Stanley Kubrick, Woody Allen,Roberto Justus e Henry Ford.
Acho que basta por aqui...
A universidade não deve ser encarada como um instrumento para se consertar a sociedade, para resolver seus “problemas”. Esta visão utilitarista parece uma desculpa esfarrapada para se retirar da Instituição seu próprio conflito existencial.
As pesquisas, as publicações, as invenções são parte do processo, afinal de contas nada disso seria possível se os “que não freqüentaram curso superior” não existissem. Estou tratando do cidadão que trabalha numa obra, no cara que recolhe o lixo e até o sujeito que faz a segurança do Campus. Será que eles são inferiores aos que cursaram curso superior ?
A universidade não é detentora da solução dos problemas da sociedade, temos de parar de colocar no pedestal a formação antes do fator humano. Não são todos que querem, ou tem capacidade de obter um diploma. E qual é o problema disso? De que adianta fabricar diplomas, se não há profissionais capacitados.
Em suma, a universidade não é para todos, como prega o discurso oficial, ela é para quem tem capacidade. E eu não estou tratando de inclusão social, acredito que todos devem ter acesso à universidade, assim como a um ensino de qualidade ¹. Mas ao contrário do que surgiu com esta nova engenharia social, as pessoas não são iguais, e a santificação do diploma como necessidade social é sem sentido e até certo ponto preconceituosa.
A estrutura do desenvolvimento científico também é caótica. Se você é um estudante de sociais vai entender bem o que estou querendo dizer. É fato, grande parte dos Tcc’s, monografias, teses de livre-docência e todo o resto da salada é permeado por um copia e cola gigantesco. Para defender suas idéias, você precisa de alguém que as tenha desenvolvido em certo grau, e precisa da orientação seja de seu orientador, seja de autor x ou y. Se surgir com uma idéia nova, por exemplo, vai sofrer como sofreu Einstein ao romper com a física tradicional. A necessidade da comprovação da novidade pelo antigo é válida, mas não somente se pode guiar por velharias. Teorias vão e vem, até pouco tempo atrás teimamos que o mundo era quadrado e o sol girava em torna da terra.
Sendo assim, ao ler muito das produções acadêmicas encontramos copia e cola em todos os lugares. E quanto às idéias próprias?
Basta observar a quantidade de doutores que pensam exatamente a mesma coisa que pensam seus orientadores. O que pode parecer lógico, pois orientador nenhum vai querer um trabalho produzido fora de seus “padrões”. Resultado: Uma pilha de trabalhos idênticos, soluções que não dão certo e perpetuação de mitos.
Faça um exercício, tente você encontrar diferenças significativas no que pensa um Emir Sader de um Reinaldo Gonçalves, ou um Armen de um Milton Santos. Difícil, ainda mais quando estes autores reinam quase absolutos em suas áreas. Um aluno que destoe do pensamento de Milton Santos, dificilmente conseguirá numa universidade cercada por seus seguidores formular questões que destoem de seus mestres. Não questiono a autoridade, e não estou considerando o que está “certo” ou o que está “errado”. Só digo que não há verdadeira “pluralidade” na academia, quando todos são quase obrigados a beber da mesma fonte.
Seja um cordeirinho de Jesus e será feliz, seja uma ovelha negra e será considerado um inapto. Na melhor das análises, estudantes são um produto.
Bruno Frank quer que o academês e o discurso vazio se explodam e está sem paciência para a vida universitária.
1. Eu duvido muito disso que isso funcione 100% mas tudo bem...